Tem sustentabilidade e meio ambiente no carnaval?

A maior festa do Brasil acabou de passar. Foram dias de muita música, fantasia e gente nas ruas. De Salvador a Recife, de BH a São Paulo e Rio. Mas enquanto os foliões curtiam, algo diferente também estava acontecendo por trás dos bastidores: o carnaval de 2026 virou palco de iniciativas que mostram que festa e responsabilidade socioambiental podem, sim, andar juntas.

E os exemplos são de todo canto do país!

Salvador abriu o jogo e entrou pro Guinness

A capital baiana já era referência em carnaval, agora é referência global em sustentabilidade também. A cidade entrou para o Guinness World Records ao registrar mais de 46 toneladas de latas de alumínio coletadas em apenas quatro dias de festa, valor cinco vezes mais do que o recorde anterior, que era do próprio carnaval brasileiro, no Rio, em 2023.

A cidade também testou o primeiro desfile descarbonizado da história do carnaval, com o Navio Pirata do BaianaSystem. O projeto, desenvolvido pelo British Council em parceria com a LAJE Sustentabilidade, realizou o primeiro inventário completo de emissões de um trio elétrico e estruturou uma cadeia socioambiental com catadores e ambulantes formalizados, remunerados e com EPIs, com previsão de gerar mais de R$ 16 mil em renda direta. O objetivo é criar uma linha de base real para reduzir progressivamente o uso de combustíveis fósseis nos trios elétricos nos próximos anos.

BH mostrou que catador é política pública

Em Belo Horizonte, o projeto Reciclabelô chegou ao seu terceiro ano com um resultado expressivo: 60 toneladas de recicláveis coletadas por dia, por quatro cooperativas atuando nas regiões de maior concentração de foliões. A Prefeitura investiu R$ 500 mil na contratação de catadores autônomos, garantindo diária mínima de R$ 150, evitando que resíduos cheguem a rios e aterros e gerando renda para famílias em situação de vulnerabilidade.

Recife transformou resíduo em arte pelo segundo ano seguido

O Galo da Madrugada, o maior bloco carnavalesco do mundo, apresentou sua escultura gigante de 32 metros e 9 toneladas feita com 100% de materiais reciclados, com a meta de que todo o material fosse coletado durante o próprio desfile. Uma força-tarefa com 400 trabalhadores entre cooperativas e catadores avulsos garantiu a operação, com 14 ecoestações e mais de 130 pontos de entrega voluntária espalhados pela cidade.

São Paulo levou o debate pra avenida

A Gaviões da Fiel, vice-campeã do Carnaval de SP, subiu na avenida com um enredo sobre preservação ambiental e valorização dos povos indígenas. Alegorias, fantasias e o samba-enredo construíram uma narrativa sobre como o futuro pode ser se houver atenção e respeito a essas pautas. Quando um dos maiores carnavais do mundo coloca esse tema no centro do espetáculo, a mensagem alcança milhões de pessoas de um jeito que nenhum relatório de sustentabilidade consegue.

Rio de Janeiro fechou o ciclo: das fantasias aos catadores

No Rio, duas iniciativas chamaram atenção. O Projeto Sustenta Carnaval recolheu cerca de 23 toneladas de resíduos têxteis dos desfiles da Sapucaí por ano, encaminhando o material para um galpão na Gamboa, onde figurinistas e artistas transformam as fantasias em novas peças e geram renda para trabalhadores do território.

Já a Casa do Catador funcionou durante todo o carnaval no Centro do Rio, oferecendo alimentação, descanso, higiene, EPIs e apoio psicossocial para catadores em situação de vulnerabilidade, mostrando que sustentabilidade sem inclusão social não fecha a conta.

O que o carnaval de 2026 nos ensina?

Cinco cidades, sete iniciativas listadas e um recado claro: a transição para eventos mais sustentáveis não é utopia, ela já está acontecendo, com logística, investimento, metas e, principalmente, com os trabalhadores juntos.

O carnaval é exemplo, sim! Se uma festa com dezenas de milhões de foliões consegue avançar nessa direção, o que falta para outros eventos fazerem o mesmo, reduzindo seu impacto?

A pergunta fica. Mas se a maior festa do país avança em sustentabilidade a cada ano que passa, já passou da hora de enxergar isso pra além da exceção.

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Sobre o autor

Gabriel Ferri

Geógrafo de formação pela UFU e comunicador por vocação. É a voz e o rosto do Planeta Pós Pandemia. Reconhecido como Agente do Verificado da ONU, Gabriel dedicou os últimos anos a decodificar a crise climática para o grande público. Já palestrou em eventos como já palestrou em eventos como Bio Brazil Fair Naturaltech e Unibes Cultural  e para equipes de grandes multinacionais. Acredita que “ninguém protege o que não entende”.