Descartar embalagens em cestos de lixo separados dos orgânicos e rejeitos é um ótimo primeiro passo para a sustentabilidade cotidiana, mas será que ela vai mesmo ser reciclada?
Em São Paulo, 4 em cada 10 materiais separados pela população para reciclagem terminam no mesmo lugar do lixo comum. Em 2024, das 3,5 milhões de toneladas de lixo produzido, 100 mil toneladas chegaram às cooperativas para reciclagem. De 2020 a 2024, a porcentagem aumentou, mas ainda é muito pouco comparado ao volume total produzido.
Para que um produto seja efetivamente reciclado, três condições precisam existir ao mesmo tempo:
- Tecnologia para separar e processar o material;
- Escala suficiente para tornar o processo financeiramente viável;
- Mercado comprador para absorver o resíduo, e isso passa diretamente pelo trabalho das cooperativas e catadores.
Quando um dos pilares falha, o reciclável pode virar lixo comum. Esses 5 exemplos do dia a dia mostram isso:
- Sachê (ketchup, maionese, mostarda e PET): O sachê parece plástico, mas é uma embalagem multicamada, plástico e alumínio colados entre si, o que garante barreira à umidade e ao oxigênio e aumenta o tempo de prateleira. Para reciclar, é preciso separar essas camadas. A tecnologia existe, mas é cara, e no Brasil quase nenhuma cooperativa ou indústria investe nisso. Para uma embalagem tão pequena e leve, economicamente, a conta não fecha.
- Nota fiscal: Impressa em papel térmico, a nota fiscal que sai do caixa do supermercado é revestida com um produto químico chamado Bisfenol, que permite a impressão sem o uso de tinta. O grande problema nisso é que essa impressão pode contaminar toda a cadeia de reciclagem do papel, podendo comprometer todo o processo e até de materiais descartados com essa nota física. Para essa, uma alternativa simples e que nós podemos tomar como partida é pedir a nota fiscal eletrônica (NF-e), sem sujeira e sem aterro envolvido.
- Esponja de cozinha: A esponja convencional de lavar louça é feita de materiais diferentes. A parte macia, geralmente, é uma espuma de poliuretano e a parte mais resistente é feita de nylon ou poliéster. Assim como no caso dos sachês, materiais diferentes entre si precisariam ser separados antes de qualquer processo de reciclagem. Outro fator que pesa é o fato de que a esponja foi usada para limpar muitos pratos e panelas e está cheia de resíduos de alimentos, gordura e detergente e isso, sem um processo de limpeza industrial, inviabiliza tudo. Programas de logística reversa já foram peça-chave para a transformação deste item em novos produtos, mas é um movimento que precisa de maior apoio da esfera pública e privada, para aumentar os locais de coleta e coprocessamento, caso a gente queira um caminho diferente dos aterros.
- Embalagem de salgadinho e bolacha: A embalagem brilhante do seu salgadinho favorito é feita de BOPP metalizado (Polipropileno Biorientado com camada de alumínio). O polipropileno, por si só, é reciclável. Mas, ao ser metalizado, o material se torna uma estrutura multicamada de difícil separação. Para os catadores e cooperativas, o problema é o peso da embalagem. É necessário coletar muita embalagem para atingir um volume mínimo para venda. Tecnologias de separação já foram apresentadas, mas falta, assim como no caso das esponjas, incentivos, pensando em aumentar a escala e realmente impactar positivamente.
- Isopor: Esse é um exemplo de material que é reciclável e existem empresas que fazem isso. O que pesa aqui, para além de sua baixa taxa de reciclagem, é o seu peso. O isopor é composto por 98% de ar e apenas 2% de poliestireno. Isso impacta, pois é um material que ocupa espaço para ser carregado até uma central de reciclagem, mas não pesa quase nada e assim, a conta não fecha.
O que esses exemplos revelam?
O Brasil gera mais de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, mas apenas 8,7% foram destinados para a reciclagem, além de perder pelo menos R$ 14 bilhões por ano em materiais recicláveis descartados em aterros e lixões. Imagina o quanto de sachê e esponja devem existir nesses lugares, quando seus destinos poderiam ser repensados e transformados em novos produtos.
O caminho continua sendo a reciclagem, mas para ser efetiva, a responsabilidade precisa ser compartilhada e definida entre indústria, poder público, terceiro setor e sociedade. Cada um com um papel, cada um com um peso diferente nessa equação. Quem tem mais poder, consequentemente, tem a maior fatia, mas o impacto é de todos.
Para nós, como consumidores, é importante buscar entender como é estruturada a cadeia da reciclagem em nossos municípios, fazer a nossa parte na separação dos itens e ter consciência de nossas compras. A mudança começa pequena, mas pode se expandir e virar cobrança por grandes players e governantes. E se você já faz isso, comunique e compartilhe com pessoas próximas, pois sustentabilidade é sobre comunicar para agir e transformar.
